Nessa segunda-feira (3), sindicatos de docentes da educação superior e básica da Argentina realizaram uma paralisação nacional de 24 horas, acompanhada de mobilizações em todo o país. O protesto aconteceu no reinício das aulas, após o recesso de inverno, e denunciou o desfinanciamento da educação pública, o descumprimento da Lei de Financiamento Universitário e a política de arrocho salarial imposta pelo governo de Javier Milei.
A paralisação contou com a adesão da Confederação de Trabalhadores da Educação (CTERA), da Federação Nacional de Docentes Universitários (Conadu) e da Conadu Histórica, além de diversas outras organizações sindicais. As professoras e os professores exigem a recomposição dos salários — fortemente corroídos pela inflação — e a restituição do Fundo Nacional de Incentivo Docente (Fonid), um aporte estatal que compunha parte essencial dos vencimentos e foi eliminado pela atual gestão federal.
Para o movimento docente, a situação é agravada pelo que classificam como "lawfare educativo": uma ofensiva sistemática que utiliza ameaças legais e administrativas para punir sindicatos e desestimular a participação em greves legítimas. O governo federal tem tentado impor a "essencialidade" do serviço educativo para limitar o direito de greve, prevendo inclusive multas milionárias e a perda da personalidade jurídica para as entidades que não garantirem uma prestação mínima de 75% das atividades durante os protestos.
As entidades sindicais reforçaram, durante a manifestação, que "não há educação pública de qualidade sem liberdade sindical". O clima de hostilidade aos sindicatos levou a Argentina a figurar, pela primeira vez, entre os dez piores países do mundo para os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, segundo o Índice Global de Direitos da Confederação Sindical Internacional (CSI).
"Com uma contundente Greve Nacional, docentes de todo o país marchamos rumo ao Ministério da Economia para exigir o cumprimento da Lei de Financiamento Universitário, salários dignos e condições de trabalho condizentes com a importância da universidade pública", destacou a Conadu Histórica, em rede social.
Segundo a entidade, o governo descumpre a lei, aprofunda o ajuste e tenta avançar contra o direito de greve, uma conquista histórica das trabalhadoras e dos trabalhadores. Frente ao ajuste e à perseguição, a categoria docente responde com unidade, organização e luta.
"O governo mente e não cumpre decisões da Suprema Corte de Justiça em relação à Lei de Financiamento Universitário (...) Este governo vai descumprir expressamente todos os processos democráticos previstos em nossa Constituição”, afirmou Oscar Vallejos, secretário-adjunto da Conadu Histórica.
Crise diplomática com o Brasil
A tensão política na Argentina transborda as fronteiras e atinge as relações com o principal parceiro comercial da região. Recentemente, o governo brasileiro retirou o seu embaixador em Buenos Aires e rebaixou o nível da relação diplomática com o país vizinho. A medida foi uma resposta direta às ofensas proferidas por Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aprofundando o isolamento regional da administração argentina.
Violência de gênero e desproteção social
Além dos cortes na educação e ataques aos demais direitos sociais, o país enfrenta uma crise social alarmante. Organizações de direitos humanos denunciam um cenário de desproteção que estimula o aumento da violência contra a mulher.
Em 2026, a Argentina já registra 150 casos de feminicídio, com crimes ocorrendo a cada 35 horas. O aumento nas estatísticas é atribuído pelas entidades ao esvaziamento de programas públicos, ao corte de recursos para prevenção e ao discurso oficial que nega a existência da violência de gênero.
Com informações da TeleSur e Agência Brasil.