Série sobre trabalho docente destaca desigualdades de carreira, território e condições estruturais

Publicado em 06 de Janeiro de 2026 às 12h12. Atualizado em 06 de Janeiro de 2026 às 13h00

O ANDES-SN inicia, nesta terça-feira (6), uma série especial que explora as diversas realidades do trabalho docente nas instituições públicas de ensino no Brasil. 

Por meio do perfil de quatro professoras e professores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), do Instituto Federal do Paraná (IFPR), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), a série apresenta o contexto de diferentes regiões para mostrar como o isolamento geográfico, as disparidades entre carreiras e os cortes orçamentários impactam o ensino, a pesquisa e a extensão.

Além disso, os relatos evidenciam como a precarização das condições de trabalho afeta não apenas à docência, mas também a organização sindical e a própria vida das trabalhadoras e dos trabalhadores. 

Docência na fronteira amazônica
Há mais de 17 anos em Benjamin Constant (AM), Solano Guerreiro leciona no Instituto de Natureza e Cultura da Ufam. O município está localizado na fronteira com o Peru, a cerca de 1.300 quilômetros de Manaus, percorridos pelos rios sinuosos do Amazonas.

Foto: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN

O deslocamento aéreo depende de Tabatinga, cidade vizinha situada na região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Ao descrever a dinâmica de deslocamento e abastecimento na região, Solano destacou as limitações impostas pela ausência de rodovias.

“Um barco saindo de Manaus, levando suprimentos para a região, leva em média de seis a sete dias para chegar ao município de Benjamin Constant. Quem abastece os municípios são os barcos; não há abastecimento aéreo, e pelas rodovias não é possível, porque não existem rodovias interligando a maioria desses municípios. A ligação se dá por hidrovias, pelos rios”, relatou. 

O docente chamou atenção para o impacto dessa realidade no custo de vida da população. “Na época da vazante, que é como chamamos a seca na região, quando o rio baixa bastante, uma botija de gás que antes custava 120 ou 130 reais pode chegar a 200 ou 250 reais. Um garrafão de água já chegou a 30 reais. Então, os custos ficam elevadíssimos, quase dobram, e o salário da população continua o mesmo. Já é difícil se manter normalmente; nesse período, fica ainda mais”, completou.

Solano Guerreiro explicou que a limitação orçamentária e o alto custo das passagens — que podem superar R$ 5 mil por trecho — afetam não apenas o cotidiano, mas também a participação docente em eventos acadêmicos, como bancas, projetos e parcerias, o que compromete a integração institucional e limita a visibilidade das pesquisas desenvolvidas na região, além da atuação sindical.

Diante desses entraves, a participação remota passou a ser utilizada como alternativa, ampliada após a pandemia da Covid-19. Segundo o professor, no entanto, esse recurso não supera os entraves estruturais impostos pelo isolamento geográfico e pela falta de financiamento.

Apesar das dificuldades, Solano afirmou que a permanência no município é uma escolha consciente. “Já tive outras possibilidades de ir para a capital, mas, por escolha minha, optei por permanecer em Benjamin Constant, que é uma cidade tranquila e boa de se morar, apesar das muitas dificuldades que os interiores do Amazonas têm — diferentes dos interiores de outros estados. Isso porque, em Benjamin Constant e em mais de 90% dos municípios, tudo é feito por via fluvial; a gente não pensa em horas, pensa em dias”, contou. O docente destacou ainda o papel estratégico da universidade em uma região de fronteira, onde ensino, pesquisa e extensão têm impacto direto nas comunidades locais. 

Transporte fluvial na Amazônia. Foto: Governo Federal/Divulgação

Para Guerreiro, os cortes orçamentários nas instituições de ensino impactam diretamente o cotidiano do trabalho docente.

“As nossas condições de trabalho são bastante desafiadoras por causa dos recursos minguados e das inúmeras atividades que precisamos realizar com pouco recurso. Fazemos um esforço enorme para manter o ensino, a pesquisa e a extensão — e agora também a parte administrativa. Estão jogando cada vez mais para os docentes a responsabilidade pela administração das instituições de ensino superior, em razão da redução do número de técnicos, justamente pelos cortes que as instituições vêm sofrendo. Então, é realmente muito desafiador trabalhar nessas condições”, disse.

A experiência de Solano Guerreiro, na fronteira amazônica, não é um caso isolado. Ela dialoga com a realidade de docentes de diferentes regiões do país, que enfrentam desigualdades históricas de condições de trabalho, assimetrias de carreira, cortes orçamentários e sobrecarga de funções. 

Para o ANDES-SN, enfrentar essas desigualdades passa pela defesa de uma carreira única, de condições dignas de trabalho e do financiamento público adequado, elementos centrais para garantir ensino, pesquisa e extensão de qualidade e socialmente referenciados.

*Este texto integra uma série de perfis sobre as realidades do trabalho docente nas instituições públicas de ensino. Os demais perfis serão publicados ao longo das semanas.
 

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