A última mesa "Espaços deliberativos e Funcionamento do ANDES-SN", realizada no terceiro dia (30) do Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas do ANDES-SN, reuniu Maria Carlotto, da Seção Sindical da Universidade Federal do ABC (ADUFABC SSind), Antônio Gonçalves, da Seção Sindical da Universidade Federal do Maranhão (Apruma SSind.) e Caroline Lima, 1ª vice-presidenta do ANDES-SN, para uma discussão aprofundada sobre os espaços deliberativos e acumulativos do Sindicato Nacional. O debate destacou a necessidade de repensar a metodologia de eventos nacionais e a cultura interna da militância para garantir a pluralidade, participação e a democracia da entidade.

As intervenções aprofundaram reflexões sobre o papel, a dinâmica e os desafios dos espaços de decisão do Sindicato Nacional, destacando a importância de aperfeiçoar mecanismos como o Congresso e o Conad e demais fóruns de debates e acúmulos. A mesa não apenas discutiu mudanças regimentais, mas também abordou o ethos e a cultura política da entidade.
Maria Carlotto destacou que o Seminário foi uma demanda da base e o seu desenvolvimento demonstrou um caminhar na direção do respeito mútuo e camaradagem e elogiou a construção do espaço. A franqueza do debate permitiu que as forças internas, que compõem o sindicato com igual legitimidade, pudessem apontar contradições e propor caminhos para que o ANDES-SN cumpra seu papel histórico e crucial de defesa da categoria e como importante instrumento de luta da classe trabalhadora. Carlotto defendeu que, além das mudanças de institucionalidade, é urgente uma mudança na cultura política para garantir um debate mais fraterno e honesto nos argumentos.

Em sua análise política, a docente da Adufabc SSind. criticou uma certa hegemonia da diretoria nos encaminhamentos dos debates e da agenda da entidade. Contudo, Carlotto reconheceu que esse cenário "mudou" ao longo do seminário, o que considerou "muito positivo". Ela defendeu a mudança de algumas formas de organização e participação para garantir, na sua visão, um ANDES-SN mais democrático e de massa, capaz de potencializar as lutas nos territórios e se articular com o campo democrático popular.
No campo das propostas, Carlotto focou na reorganização financeira e no formato dos eventos, e sugeriu fugir de "falsas dicotomias". Ela defendeu a manutenção do Fundo Único e dos repasses das seções sindicais ao Sindicato Nacional, mas propôs o fim dos rateios, argumentando que algumas Seções Sindicais estão "profundamente sufocadas pelos elevados custos". Além disso, sugeriu a reflexão sobre congressos bianuais e propôs que, embora Congressos e Conads devam ser presenciais, as reuniões de GTs e setores poderiam ser híbridas para, segundo ela, potencializar a participação em um país continental e reduzir custos. “Saio mais consciente das nossas diferenças de contextos, que são um enorme desafio para nossa organização”, observou.

Antonio Gonçalves baseou sua fala nas características que definem a entidade. Ele destacou que o ANDES-SN é um sindicato classista, que sempre fugiu de uma avaliação centrada apenas na categoria, imprimindo uma marca propositiva como instrumento de luta da classe trabalhadora. O ex-presidente do Sindicato Nacional, os 12 Grupos de Trabalho (GTs) cumprem um papel importante para aprofundar estudos sobre temas que incidem na ação geral do sindicato, reforçando esse fundamento classista.
Gonçalves ponderou que o grande desafio do Sindicato Nacional muitas vezes reside nas assembleias de base, que são a instância fundamental para estruturar as decisões da entidade e pluralizar o debate e acúmulo. Ele lamentou que as assembleias sejam às vezes preteridas, funcionando como uma "consulta virtual" onde as pessoas não participam efetivamente do debate. O ex-presidente do ANDES-SN criticou o esvaziamento e, por vezes, o desrespeito às deliberações das assembleias em algumas seções sindicais. Ele ressaltou que o objetivo do método sindical é "atrair a categoria para a luta".
Abordando as mudanças metodológicas, Antônio Gonçalves detalhou alterações já realizadas ao longo dos últimos dez anos, como a redução do tempo dos eventos (Congresso para 5 dias, Conad para 3) e a extinção da "centralidade da luta" dos debates congressuais, em 2014. Ele criticou o costume de remeter pendências e teses derrotadas para o Conad, o que acaba transformando o espaço em um "mini congresso", sobrecarregando a instância e tornando as discussões extemporâneas. Por fim, alertou sobre a necessidade de debater o uso de novas tecnologias sem comprometer a qualidade da militância e da mobilização.

Caroline Lima, 1ª vice-presidenta do ANDES-SN, contextualizou a dificuldade em organizar o Seminário, diante da necessidade de mobilização da categoria contra a Reforma Administrativa, e ressaltou o sucesso do evento que ainda assim garantiu ampla participação e debates. Ela mencionou ainda o impacto das intervenções do governo de Jair Bolsonaro nas escolhas de reitores, que resultaram numa intensificação do controle do tempo e do trabalho docente, como a necessidade de, em algumas universidades, apresentar relatórios sobre a participação nos Congressos e Conads do Sindicato.
A diretora do ANDES-SN também detalhou as alterações metodológicas implementadas, como a redução de dias dos eventos e a aprovação de resoluções que sejam validadas por, ao menos, 1/3 dos grupos mistos. Contudo, levantou a principal contradição da entidade: "Nós alteramos os espaços deliberativos, mas nossa militância não mudou suas práticas para disputar esses espaços", disse.
Caroline também ressaltou a distorção do papel do Conad, que, embora deva focar especialmente em questões organizativas e financeiras, e apenas atualizar o plano de lutas da entidade, se tornou um "mini-Congresso" ou "segundo turno" dos Congressos, secundarizando temas essenciais. Ela questionou se a categoria teria a "ousadia de mudar o “ethos acadêmico" para garantir a conclusão efetiva dos debates. Entre as perguntas para o debate futuro, propôs a indicação de limite para observadores e o aumento do mínimo de assinaturas para apresentação de TRs, buscando garantir a diversidade de posições da base, a possibilidade da comissão organizadora devolver TRs que tratem de temas já deliberados pela categoria e ainda pensar estratégias para ampliar a participação de docentes de seções sindicais com poucas filiações em espaços deliberativos e também de formulação, como as reuniões dos setores e dos GTs.

Avaliação
Caroline Lima avaliou como muito positiva a última mesa do seminário, pois expressou as diversas posições do sindicato, e também a necessidade de mudança nos espaços deliberativos e da forma de funcionamento do Sindicato Nacional. “Nós conseguimos ouvir da categoria diversas sugestões que vão ajudar nas nossas proposições para o próximo Congresso. Essa mesa também representou a necessidade da gente reinventar nossos espaços, mas sem abrir mão dos nossos princípios, sem abrir mão da nossa compatibilidade e sem abrir mão, por óbvio, da defesa da nossa carreira única e da educação pública, gratuita, laica, diversa e de qualidade”, concluiu.
Conforme consensuado ao final da última mesa, os encaminhamentos dos debates serão sistematizados em um relatório e encaminhados às seções sindicais. Aquelas seções que estiveram presentes no Seminário poderão avaliar o relatório e sugerir inclusão de pontos que possam não ter sido contemplados. O conteúdo dos debates e propostas do seminário irão compor o texto de apoio e propostas de resolução que o GT de Política de Formação Sindical apresentará ao próximo Congresso do ANDES-SN, que acontecerá em Salvador, em março de 2026.
*Fotos: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
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